STATUS E STRESS
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"Emoções, ambição e impetuosidade são fatores
básicos para
o progresso da humanidade. Sem eles, a vida seria uma rotina
impessoal, seca e pré-calculada, difícil de ser vivida. O irônico
é que muitos dentre os indivíduos que mais contribuem para o
desenvolvimento da sociedade moderna - os emotivos, ambiciosos
e impetuosos, e, talvez por isso, dotados de maior iniciativa, visão e
vigor - são, precisamente, aqueles mais voraz e precocemente
devorados por essa mesma sociedade."
Jorge Martins de Oliveira.
O mundo vem atravessando, a partir do fim da segunda guerra mundial, uma era de intenso e rapidíssimo desenvolvimento tecnológico e científico, o que tem sido acompanhado de certos fenômenos sociais de extrema relevância, como o aumento quase incontrolável da densidade populacional urbana e o encurtamento das distâncias, não só pelos modernos e velozes sistemas de transporte mas, principalmente, pela expansão e aperfeiçoamento dos meios de comunicação.
O avião a jato e a televisão "diminuíram", ainda mais, um planeta que já se fizera pequeno pelo crescimento demográfico. E "menor" ainda ele se tornou, com a entrada em cena dos computadores permitindo, em segundos, a difusão de informações e a troca de idéias, por toda a Gaia, através da INTERNET. Mesmo nos recantos mais tecnicamente atrazados da Terra, o radinho de pilha tornou possível a universalização dos acontecimentos, independentemente do local em que ocorram. Um fato que acontece na mais longíngua aldeia da Polinésia é prontamente divulgado, e dele logo toma conhecimento, o mais humilde lavrador do interior do Estado do Piauí.
Esses fenômenos, na realidade, se interagem e têm, até certo ponto, uma relação de causa e efeito, na medida em que o fascínio exercido pelas grandes metrópoles, transmitido, em som e imagem, para áreas rurais, representa um dos fatores que mais contribuem para a migração dos campos para as cidades, tornando-as insuportavelmente densas e aumentando, nos grandes centros, o número de homens e mulheres psicologicamente despreparados e profissionalmente desqualificados para a vida urbana. Nas próprias megalocidades, através da TV principalmente, a propaganda incrementa o desejo individual por melhores bens de consumo e a cobiça pelo supérfluo.
Hoje, muito poucos estão satisfeitos com o que possuem. Há sempre um degrau mais alto a ser atingido. Raros são os que aceitam o possível. Virtualmente, quase todos procuram "subir" sempre mais um nível, não importando que valores sejam sacrificados no processo. Tudo é válido na busca incessante do . . . status. Mas essa escalada tem um preço. Um preço muito caro denominado. . . stress.
O que é Status ?
Status é uma situação abstrata, uma espéde de nirvana sócio-econômico-cultural que, traduzida em uma linguagem simples - para caracterizar o que é, em essência, a1go muito complexo - significa estar situado em uma posição elevada dentro do grupo social ou comunidade a que se pertence, ou possuir mais e melhores valores materiais do que a maioria dos membros desse grupo ou dessa comunidade.
E Stress... o que é Stress?
Conceituação Original
A primeira conceituação vem da década de trinta, quando Hans Selye descreveu a "Síndrome Geral de Adaptação " do ser humano a determinados estímulos. Considerou o stress como sendo uma reação orgânica à situações como dor, medo ou raiva, através de um envolvimento neurohormonal, do qual resultam alterações fisiológicas como taquicardia (aumento da freqùência cardíaca), redistribuição do sangue para os músculos estriados e midríase (dilatação das pupilas), fenômenos esses que preparam o indivíduo (ou o animal) para fugir ou lutar.
Trata-se, assim, de uma reação específíca contra estímulos também específicos, de curta duração, não destinada a deixar sequelas físicas ou psicológicas. É apenas um processo reacional, suficiente para atender às solicitações, relativamente simples, impostas por modalidades de vida igualmente simples, como ocorre entre os animais e mesmo em sociedades humanas com estilo de viver primitivo. O substrato bioquímico, desencadeado por essa forma tradicional de stress, é uma substância do grupo das catecolaminas, denominada adrenalina, a qual é liberada pelo sistema nervoso simpático e pelas glândulas suprarrenais.
Evolução Conceitual de Stress
Sucede que o Homem desenvolveu, à medida que se "civilizava", certas peculiaridades psicológicas, sem que tivesse desenvolvido, paralelamente, os meios biològicos para sustentá-las. O ser humano, pelo sentido de previsão de que é dotado, mercê de seu desenvolvimento cerebral superior, apresenta, a priori, duas desvantagens do ponto de vista psíquico-emocional, quando comparado às demais espécies :
1a - É o ùnico ser que sabe que vai morrer (outros podem pressentir a morte por instinto, mas não compreendem suas implicações existenciais nem o sentido de obliteração, por simplesmente "deixar de ser". Até os mais religiosos são atingidos, conquanto talvez em menor grau, pelo reconhecimento desse fato.
2a- É também o único que sofre por antecipação, mesmo quando não submetido a um condicionamento "pavloviano".
A essas duas cruéis vulnerabilidades, inerentes a nossa espécie, acrescente-se, aos "civilizados", as competições cotidianas, seja por um "lugar ao sol" ou, até mesmo, por um lugar no trem; a eterna batalha contra o relógio; a renúncia de ideais em troca de melancólicas vitòrias materiais; a compulsiva necessidade de fazer tudo, para acabar sentindo que nào fez absolutamente nada do que realmente desejava. Enfím, a luta constante contra o meio e contra si mesmo.
Observe-se que, aquí, o elemento bàsico é a competição, a qual já é, por si, um fenômeno intrinsecamente ansiogênico, ainda mais quando representa uma luta pela própria sobrevivência. Adcionalmente, o ser humano vem se conscientizando,e muito, neste final de século, da necessidade de "se realizar" num plano mais profundo- buscar um grande amor, por exemplo. E realizações como esta, ficam cada vez mais difíceis, à medida que os valores fundamentais da existência, passam a se confundir, muitas vezes, com outros, talvez não tão verdadeiros em sua essência, mas que adquiriram importância diante das crescentes exigências do meio social.
Tudo isso gera ansiedade e frustrações, estímulos complexos, para os quais o ser humano não se encontra biológica e psicologicamente aparelhado para enfrentar. E como tais estímulos são constantes e repetitivos, também permanentes passam a ser as respostas bioquímicas que determinam . As elevações mantidas das taxas séricas de colesterol, ácidos graxos, triglicerídeos e corticoides, bem como a exacerbação dos mecanismos de coagulação sangufnea e agregação plaquetária, não são, por certo, fenômenos favoráveis à bioestabilidade do organismo.
Também a persistente liberação de catecolaminas - e aqui, parece predominar a nor-adrenalina - representa uma resposta inadequada, impròpria e potencialmente perigosa.
O resultado final é o estabelecimento de uma situação de caráter duradouro, um nítido desvio da síndrome de adaptação original. Situação esta a que se dá o nome de distress - e que causa repercussões orgânicas persistentes e nocivas. A fim de evitar confusões semânticas, passaremos a empregar, de agora em diante, a expressão "aportuguesada" estresse, para traduzir, em sentido amplo, todas aquelas condições capazes de provocar reações psíquico-emocionais suscetíveis de produzirem as respostas bioquímicas jà mencionadas e as alterações fisiològicas ou patològicas que delas resultam.
Tipos de Estresse
Não existe uma classificação perfeita ou universamente aceita, mas adotaremos uma, simplificada, levando em consideração vários fatores : o caráter transitório ou permanente do processo; o padrão de comportamento inerente a cada indivíduo; as influências ambientais a que ele está sujeito; e os agentes impulsivoss que o impelem para a competição e para a luta.
1 - Estresse por instabilidade emocional aguda
Certas situações de impácto, com forte conteúdo emocional, podem levar o indivíduo a uma de duas formas de reação fisiològica : hiperatividade simpática ou hiperatividade vagal.
Hiperatividade simpática - Trata-se aqui de uma resposta neuroadrenal transitória àqueles estímulos já referidos (dor, medo, raiva), segundo os princípios da "Síndrome Geral de Adaptação". Em certas pessoas, extremamente sensíveis, mormente se já portadoras de distúrbios cardíacos, estados emocionais agudos, como alegria, pavor ou ira, se muito intensos, soem ocasionar crises da maior gravidade, podendo chegar ao infarto do miocárdio ou à morte súbita, presumivelmente decorrentea de altas descargas de catecolaminas. Ou, em outras, produzir acentuada desestabilização da mente, com sérias repercussões comportamentais, capazes de determinar as mais imprevisíveis reações.
Hiperatividade vagal - Existem certas situações psicològicas peculiares, como total desesperança ou extrema tristeza, capazes de, eventualmente, levar o indivíduo a um estado do mais absoluto desinteresse, inclusive em relação à própria vida. Trata-se de uma autêntica capitulação emocional, que tem, como substrato fisiopatològico, uma severa bradicardia vaga1 (redução acentuada da frequência dos batimentos cardíacos). Esta bradicardia pode favorecer o desencadeamentc do arritmias (batirnentos irregulares), passíveis de evoluir para uma fibrilação ventricular ou parada cardíaca. As duas condições promovem a cessação da atividade mecânica do coração, determinando a total paralização da circulação do sangue e, consequentemente, a morte.
2 - Estresse constitucional
Em 1959, dois pesquisadores americanos, Friedman e Rosenman, através da observação da conduta dos pacientes durante as entrevistas e de testes psicològicos, classificaram os seres humanos em dois tipos básicos, em relação ao padrão de ccmportamento : A e B.
O padrão de comportamento A é exibido por pessoas tidas como candidatas potenciais a desenvolverem doença arterial coronariana (DAC). São as seguintes as principais caracteristicas do tipo A : Expressão geral de vigor e energia, autoconfiança e permanente estado de alerta. Caminhar apressado e apertar de mão vigoroso. Voz alta e firme. Concisão no expressar e brevidade nas respostas. Tendência a não pronunciar os sons finais das palavras. Tendênda a interromper os outros, intercalando palavras curtas como "sim, sim" ou "está bem, está bem". Intolerância e impaciência quando tem de esperar, chegando ao ponto de revelar, no ato, uma profunda irritação. Durante a entrevista, tendência a se sentar na ponta da cadeira, balançar as pernas ou agitar as mãos enquanto fala.
A estrutura psicológica do tipo A compreende: tendência acentuada a buscar metas habitualmente não bem definidas. Marcada impulsão para competir. Persistente desejo de progresso e reconhecimento. Participação simultânea em múltiplas tarefas, sujeitas, quase todas, a imposições de tempo. Propensão a acelerar o ritmo das atividades físicas e mentais, (principalmente destas últimas). Irritabilidade e agressividade (as vezes contidas), desproporcionais à situação ou ao fato em questão.
O tipo A é um padrão de comportamento que corresponde àquela personalidade que Wolf batizou de Sisyphus pattern. Segundo uma lenda grega, Sisyphus, rei de Corinto, foi condenado pelo deus Hades a empurrar uma enorme pedra até o cimo de uma montanha. Contudo, assirn que a rocha chegava quase ao topo, ela escorregava até embaixo e o pobre Sisyphus era obrigado a começar tudo de novo, a coisa se repetindo indefinidamente. A lenda espelha bem o eterno frustrado, exatamente o que acontece com muitos indivíduos do tipo A.
Outra peculiaridade curiosa dessas pessoas é sua incapacidade de relaxar : quando afastam-se de suas atividades (pelas quais são, em geral, obsessivas), mostram-se inquietas, sentindo-se culpados pela "ociosidade" a que, a contragosto, se entregaram.
Este padrão de comportamento, embora represente algo de intrinseco, herdado ou adquirido muito cedo, sofre, com certeza, influências ambientais.
O padrão do tipo A tende a exteriorizar-se mais intensamente em ambientes onde a vida é veloz, agressiva e competitiva, posto que tais condições identificam-se com a própria estrutura psicológica do individuo. Assim é que, não deve ser difícil para um tipo A paulistano, demonstrar suas tendências agressivas e espirito competitivo, ao volante do carro, em trânsito congesto, após um dia de trabalho intenso e nervoso nos agitados centros de negócios daquela metrópole. Em contraposição, não deve ser fácil para um polinésio tipo A, cuja ocupação maior é quebrar côcos, sem grandes compromissos com o tempo, encontrar oportunidades ou motivações para exteriorizar, com frequência, suas propensões agressivas e competitivas.
Já o fipo B, a despeito de toda e qualquer atmosfera social adversa, recusa-se a participar da veloz competição e desfila pela vida, lenta e tranquilamente, apesar de todos os desafios e eventuais solicitudes. Não se entenda, contudo, o tipo B como obrigatoriamente incapaz e improdutivo. Ele pode e consegue reaIizar, tanto ou mesmo mais do que o A. Apenas desempenha suas tarefas com certa parcimônia, vivendo peio calendário e não pelos ponteiros do relógio.
3 - Estresse ambiental
Independentemente do padrão de comportamento individual e das diferentes situações existenciais ou estados emocionais a que cada ser humano está potencialmente exposto, em função de suas ocupações, relacionamentos familiares e sociais e hábitos de vida, parece existir, nos grandes centros da nossa moderna civilização, um outro fator, de certo nocivo, a que convencionamos chamar estresse ambiental ou atmosfera social negativa.
Este estresse se nos afigura corno um pré-requisito para doenças cardiovasculares, ainda mais relevante do que as caracteristicas nutricionais da comunidade. E cada um, mercê de sua constituição psiquico-emocional,vai reagir, com maior ou menor intensamente, ao impacto que o meio ambiente exerce sobre ele.
Como atua a atmosfera social negativa? O caráter altamente competitivo de certas comunidades - e para isso muito contribui a elevada densidade populacional - obriga a pessoa a imprimir um ritmo mais acelerado de vida e a torna-se mais insistente, persistente e agressivo - é a luta pelo status, por uma situação econômica mais favorável ou, simplesmente, por um lugar ao sol. Tudo isso gera um estado permanente de tensão, cujo substrato bioquimico se traduz por uma produção contínua de catecolaminas.
É ainda possível que a atmosfera (real) poluída das grandes cidades contribua, através do monóxido de carbono e outros tóxicos, para agravar os malefícios causados pela excesiva produção dos aminocatecóis. Evidentemente, esta atmosfera social negativa não se expressa em unidades específicas, mas talvez sua intensidade possa ser parcialmente inferida pelo somatório de diversos parâmetros, como curva inflacionária, indice de criminalidade, número de acidentes nas ruas e estradas, frequência dos engarrafamentos de trânsito, grau de poluição sonora, densidade demográfica, desempregos, greves etc. Tudo, enfim, que traduza insegurança e intranqililidade.
4 - Estresses existenciais
São aqueles que resultam de conflitos afetivos (no seio da família ou fora dele), das pressões ligadas à atividade profissional e do imperioso, as vezes obssesivo, sentimento de ter de "vencer na vida", custe o que custar.
Conflitos familiares - Para alguns autores, a instabilidade no setor doméstico constitui um sério risco para a doença coronária manifesta. Medalie e Goldbourt chegam a admitir que o amor e o amparo da esposa são fatores que contribuem para reduzir o número de crises anginosas. Tem sido nossa observação, e certamente não é nosso exclusivo privilégio, que a existência de relacionamentos extraconjugais, com real envolvimento emocional, ainda mais se acompanhados de sentimento de culpa, traduzem uma sobrecarga psicológica intensa, contribuindo para elevar o número de eventos coronarianos, em uma fase da vida em que tais acidentes já são normalmente frequentes em nossa sociedade.
Estresse ocupacional - Por tal entendemos a associação de uma alta carga horária de trabalho à insatisfação profissional e à tensão e responsabilidade decorrentes da profissão. Se um número exagerado de horas de trabalho representa uma sobrecarga física e emocional, porque, além de tudo, limita o tempo disponível para descanso e lazer, maior ainda será o desgaste, se o exercício prolongado da atividade profissional estiver ligado à insatisfação pela própria atividade. Em outras palavras, fazer algo desagradável por muito tempo é "frustrativo", penoso e perigoso para qualquer ser humano. Além disso, tal situação tende a levar o indivíduo a derivativos ccmpensatórios negativos, como fumar, beber mais café, comer mais etc., o que significa um risco adicional.
Status e Estresse
Se todos os membros de uma ccmunidade, em particular dos grandes centros urbanos - onde é forte o estresse ambiental - parecem contaminados pelo germe do status, são aqueles indivíduos situados mais pròximos do poder, os que se mostram mais vuIneráveis a essa contaminação. Isto porque o poder representa o vértice da pirâmide. Mas é da maior importância que se entenda a expressão poder, de uma forma ampla, com sentido bastante relativo, essencialmente associado à área de atuação particular de cada um. Assim é que, para um executivo de uma empresa, o poder que ele aspira pode ser o cargo de diretor-geral ou a presidência da instituição. Já para um político, o poder visado pode ser um Ministério ou a Presidência da República. No entanto, para um participante das atividades de uma favela, esse poder poderá representar, simplesmente, a direção de uma escola de samba, a presidência da associação de moradores ou, se na área da marginalidade, o controle do tráfico de drogas no local. É o "absoluto" dentro do "relativo".
Evidentemente, o grau de angústia e ansiedade decorrentes dessa "luta para cirna", depende não só da intensidade dos òbices que se opõem à chegada ao almejado poder, mas também, e principalmente, do nível de estabilidade (ou instabilidade) dos candidatos envolvidos no processo de escalada. Muitas vezes, o desejo de poder atua em tal proporção, que chega à obsessão. E, quanto maiores os obstáculos à consecução do objetivo, mais intenso o nível de frustração. Tudo isso gera aquele estado de estresse (ou melhor dizendo, distresse) já referido, provocando alterações bioquímicas, que soem atingir negativamente todo o organismo e, em particular, o sistema cardiovascular. É quando o homem (ou a mulher) se torna mais vuInerável às manifestações clínicas da DAC : angina de peito, infarto do miocárdio e morte súbita.
É claro que não é apenas a disputa nas proximidades do ápice da pirâmide (poder maior) que provoca o estresse. Ele também acontece em qualquer etapa do processo de esca1ada, sempre que a subida de mais um degrau não ocorra naturalmente, mas resulte de uma persistente luta, movida pela ambição.
E, curiosamente, quem já atingiu o ápice, o poder máximo a que poderia aspirar, parece menos propenso à última condição clinica da DAC - a morte súbita. Nos últimos anos, quase não se registraram casos de morte cardíaca entre Chefes de Estado, quando na vigência do cargo. Gamal Abdel Nasser do Egito é a mais notável exceção à confirmar a regra.
Usualmente, o líder supremo tem sempre a "última palavra", o que parece transferir as ansiedades e, particularmente, as frustrações para aqueles que devem se submeter as suas determinações. Adolfo Hitler, por exemplo, nunca sofreu um ataque cardíaco, mas inúmeros generais alemães foram vitimados por infarto do miccárdio, após difíceis reuniões com o "fuhrer" nazista. As crises dos líderes parecem caracterizar-se mais por indignação e "explosões" de raiva do que por frustrações, o que, em termos cardiovascu1ares, tende mais a produzir surtos hipertensivos do que eventos coronarianos. O que favorece acidentes circulatórios na esfera cerebral. Costa e Silva e Eisenhower são dois exemplos relativamente recentes.
Após a perda do poder, no entanto, muitos homens morrem ou apresentam, a curto prazo, sinais e sintomas de deterioração física ou mental. É como se a perda da autoridade constituisse um sentimento de "perda" inaceitável, gerando, em uns, intensa frustração e revolta e, em outros, um estado de desinteresse não menos patológico e perigoso - a capitulação emocional, já mencionada, de início externada por depressão melancólica, de difícil controle. E, depois, passando para o clássico estado de desinteresse absoluto, o qual, não raramente, evolui, em pouco tempo, para o êxito letal. "O que mata não é o poder e sirn a ambição em atingi-lo ou a tristeza por havê-lo perdido".
O mesmo parece ocorrer em outros níveis : a ocorrência de infarto e morte súbita é menos frequente nos presidentes de empresas do que nos executivos, em fase de ascenção, com os olhos voltados para o ápice da pirâmide. Outro forte candidato a acidentes coronarianos graves é aquele discreto, eficiente e minucioso burocrata, aparentemente conciliado com sua modesta situação, mas interiormente amargando a frustração de uma imensa ambição, disfarçada pela sua própria timidez.
Há ainda um outro fenômeno curioso, que ocorre nessa interrelação status-estresse : trata-se do que costumamos chamar incongruência sócio-cultural e que resulta da ascenção, na escala social, de alguém que não se encontra - e disso tem plena consciência - capacitado ao exercício das novas atividades, impostas pelo nível a que se viu elevado. Esta situação cria um estado conflitante, povoado por ansiedade, medo de fracassar, frustrações e, até mesmo, sentimento de culpa, que acaba desaguando em um estresse crônico, com todas as suas eventuais e nefastas consequências.
A exteriorização do status
A nocão de status associa-se, muitas vezes, à idéia de urna posição social destacada que, usualmente, faz-se acompanhar de manifestações ostensivas de riqueza e/ou poder. A famosa 'mordomia" dos dias atuais talvez constitua a mais tipica exteriorização de status. Na chamada classe média alta - certarnente a camada social mais atingida pelo complexo do status - sentir-se "realizado" parece significar, entre outras coisas, seguir o seguinte decálogo:
1 - Morar em casa ou apartarnento de luxo.
2 - Ter vários automòveis - com motorista, de preferência.
3 - Possuir moradia de carnpo e/ou lancha (se possível, iate), para os fins de semana.
4 - Pertencer a "clubes exclusivos".
5 - Jantar em restaurantes famosos.
6 - Aparecer, com a maior frequência possivel, nas colunas sociais.
7 - Possuir vários refrigeradores, aparelhos de ar condicionado, televisões, video-cassetes e, como a moda está pegando, diversos computadores, ainda que nem saiba, sequer, como movimentar um "mouse".
8 - Fazer algumas viagens anuais ao exterior (é válido Buenos Aires, Montevidéo ou Santiago do Chile, mas Estados Unidos e Europa conferem mais prestígio).
9 - Realizar aplicações financeiras (se possível, em paraíso fiscal lá fora, ainda que ilegalmente).
10 - Ser, ou se fingir, amigo de personalidades famosas e importantes.
Em terrnos de arnbiente profissional, o grau de status costuma ser avaliado pelo número de aparelhos telefax à disposição ou pela quantidade de auxiliares e secretárias. O denominador comum é uma idéia de posse que se confunde com a noção de poder. A necessidade de progredir diante dos olhos dos que os cercam, levarn alguns individuos a um estágio obsessivo não muito distante da fronteira da paranóia. Alguns homens, no entanto, alcançam, natural e expontaneamente, as mais elevadas posições no contexto sócio-econômico-cultural, cercados por toda sorte de "mordomias", sem que se tornem pomposos ou sintam-se particularmente gratificados pelo poder que detêm . Não é a ostentação ou a autoridade pela autoridade que os realizam. Para eles, a gratificação está no significado dos resultados obtidos pelo seu trabalho. Para eles, o sucesso é uma óbvia conseqüência de seus méritos e não foi alcançado através de uma luta obsessiva e patologicamente ansiosa (logo estressante), visando, única ou predominantemente o status em si. Via de regra, pertencem ao Tipo B.
Logo, idealmente, o status não deve ser tido como meta, a ser atingida a qualquer preço, mas a natural decorrência de uma situação a que se chegou naturalmente, visando, no decorrer do processo de escalada, os valores mais elevados de uma auto-realização cultural, mental e, talvez para alguns, até mesmo espiritual.
Também nas camadas mais pobres da população desenvolve-se, as vezes, a idéia de status, mas de um status que, no caso em pauta, tem um caráter especial, diríamos até mesmo insólito, já que o alvo ambicionado pelo aspirante está fora da área de suas habituais atividades. Esta ambição resulta, via de regra, de espectativas criadas pelos meios de comunicação, as quais alimentam a imaginação e o consequente desejo por um status situado muito além do que a condição socio-econômica do postulante parece possibilitar.
Isto pode ter urn sentido positivo, quando motiva o individuo para estudar e trabalhar, a fim de ascender na escala social, dentro de um processo evolutivo de progresso, sem perder de vista as suas naturais limitações. A escalada é, via de regra, difícil e penosa, mas pode e deve ser trilhada guardaudo-se os principios básicos dos direitos individuais e coletivos. E, em alguns casos, o objetivo é alcançado.
Às vezes, no entanto, e lamentavelmente, a propaganda do status gera sérios conflitos em pessoas que, além de sócio-economicarnente inferiorizadas, não estão psicologicarnente preparadas para enfrentar o difícil caminho que lhes possibilitaria realizar, dentro da lei e da ordem, seus sonhos e ambições. Surge, então, o ímpeto de "queimar etapas", de obter os bens que se deseja por caminhos aparentemente mais fáceis, mas que terminam no crirne e na marginalidade. Esses individuos, além dos riscos a que se expõem, diante da repressão policial - o que é, por sí, urn fator estressante, sofrem ainda as ansiedades e frustrações comuns a todos que buscam um status de dificil alcance. As conseqùências para o organismo são inevitáveis e altamente deletérias: não raro, encontramos, em nossas penitenciárias, uma elevada incidência de hipertensão arterial entre criminosos ainda bem jovens, muitos dos quais já apresentando graves lesões cardiovasculares.
Considerando que as doenças do coração e das artérias (hipertensão) são as que incidem com maior frequência nos grandes centros urbanos, há que se ressaltar que a busca de status (ou poder) é um significativo fator de risco dessas enferrnidades, ao lado de outros, não menos relevantes, como erros dietéticos, obesidade, fumo, sedentarismo, etc.
É por tudo isso que inúmeros homens (e mulheres), dentre os mais ambiciosos e dinâmicos da nossa hodierna sociedade pagarn, por essa arnbição e por esse dinamisrno, um preço extremarnente caro : o de se tornarem, quando ainda relativamente jovens, fisicamente limitados ou até incapacitados, deixando, assim , de usufruir, integralmente, daquilo que, com tanta luta, haviam conquistado.
E outros, talvez ainda menos afortunados, jamais chegarão a conhecer aquele tão ambicionado status, já que, na ânsia de alcançá-lo, realizaram o extremo dos sacrifícios: pereceram no decorrer da escalada...
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